editorial

O grito dos Inocentes 

O policial militar Gevani Carvalho matou o garoto Pedro Henrique Queiroz e não se desculpou porque não há desculpa para a falta de preparo dos militares que trabalham nas ruas e certamente vão continuar matando e roubando a vida de inocentes.

 

O tcheco Franz Kafka escreveu no méis límpido alemão, embora tenha sido traduzdo, no Brasil, por um jornalista de nome Torrieri Guimarães, “do original inglês”. Trata-se, lógico, de uma tradução indireta, por vezes sem captar as nuances do texto complexo do autor de “O Processo” e “A Metamorfose”. 
Felizmente, para o leitor brasileiro, há versões diretas do alemão, de Modesto Carone, as de maior escopo, pela Companhia das letras, e de Marcelo Backes, pela L&PM, ambos escritores e com ampla experiência no ramo. 

Os trabalhos das duas editoras são cercados de razoável aparato crítico. “A Metamorfose” é possivelmente a mais citada novela de Kafka, mas o romance de “O Processo” é mais emblemático. Dele derivam os adjetivos kafkiano, kafkaesco e kafkesco. Kafkiano, informa o Dicionário Houaiss, “evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo, especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade”. 

É uma síntese de “O Processo”, no qual o personagem principal, Joseph K., se o protagonista não for exatamente a burocracia implacável do mundo moderno, é preso, condenado e morto. Mas sem saber as razões de ter sido enredado nas poderosas teias do mundo tecnoburocrático. 

Kafka é citado, aqui, com o objetivo de ressaltar o absurdo da morte do bacharel em Direito Pedro Henrique de Queiroz, um garoto de 22 anos.

No domingo, 7, Pedro Henrique e sua mulher Pabline do Valle, de 21 anos, voltavam da festa de batizado de seu filho, Davi, de 7 meses, na companhia de Marcos Cezar Teixeira de Oliveira, de 23 anos, que dirigia seu Renault Clio. Pabline conta que, por ter errado o caminho de sua residência, Marcos Cezar freou o automóvel, de modo brusco, e, de repente, eis Kafka, o absurdo, o imponderável: um tiro mudava, para sempre, a história de uma família.

Ao ver o veículo frear o veículo bruscamente, cantando pneus, o soldado Gevani Carvalho da Silva, que estava a serviço da Superintendência Municipal de Trânsito, sacou o revólver e atirou. Na sua versão, atirou para acertar o pneu do carro e, assim, faze-lo parar. Mas não. O soldado Gevani parece ter mirado um pouco mais acima do pneu, pois o tiro acertou a cabeça de Pedro Henrique, que, levado ao Hospital Santa Mônica, morreu na quinta-feira, 11.

A própria Polícia Militar, por meio do coordenador do Núcleo de Comunicação Social, tenente-coronel Sérgio Massatoshi Katayama, admitiu que o soldado Gevani errou. 

Os policiais não são treinados para fazer este tipo de abordagem – estranha a qualquer manual de segurança e às mínimas regras de civilidade. Ao falar a respeito do erro fatal, Katayama usou uma palavra forte: frisou que o tiro de Gevani “dizimou uma família” e “maculou a imagem da corporação” (“O Popular, de sexta-feira, 12).

Por que Gevani atirou, acertando, de uma só vez, Pedro Henrique e a imagem da PM? À Polícia, o soldado admitiu que não recebeu nenhuma ordem para atirar, embora estivesse, naquele momento, subordinado ao cabo Marcelo Sérgio dos Santos.

O mais surpreendente, porém, é sua argumentação. O kafkiano Gevani atirou num veículo em que não pôde identificar as pessoas – seres humanos que nada faziam de grave, exceto trafegar por uma área pública, uma rua – com o argumento, pobre, de que o motorista não atendeu à sua determinação para parar.

Os ocupantes do Clio sustentam que não ouviram nenhuma ordem e nenhuma sirene foi ligada. Como Marcos Cezar não estacionou o carro, Gevani atirou. Como se fosse justo atirar para fazer um veículo parar, mesmo o policial não tendo recebido nenhuma informação de que, nele, havia pessoas de alguma periculosidade. 

A desculpa de Gevani é isto mesmo: uma desculpa. Mas, na verdade, no lugar de se desculpar com a família do garoto assassinado, mostrando um pouco de humanidade, Gevani continuou insistindo que não estava errado. Felizmente, para o bom nome da Polícia Militar, uma instituição respeitável, apesar de suas ovelhas desgarradas, o tenente-coronel Katayama passou por cima do corporativismo e disse, com todas as letras, que Gevani errou.

Há uma tendência, não apenas brasileira, de se culpar o todo, para, no fundo, não se culpar ninguém. No caso específico, embora a PM deva ser responsabilizada, até por qualificar mal seus profissionais, é preciso estabelecer a culpa individual. 

A culpa tanto do soldado Gevani quanto do cabo Marcelo dos Santos, que, sendo seu superior imediato, não o impediu de atirar. 

Deve ser ressalvado que, em tese, a PM orienta para outro tipo de abordagem e o soldado, criminosamente, optou por uma abordagem pessoal, não legal, e, por isso, tem que arcar com as conseqüências.

Gevani matou um inocente, que não estava em conflito com a PM ou com a sociedade e não oferecia nenhum risco, mas, como vai dizer seu indefectível advogado, não tinha a intenção de matar e, por isso, mesmo que seja condenado pela Justiça, não receberá uma pena pesada (vale frisar que o major Davi Dantas, acusado de matar o médico Marcelo Pacheco, até agora não foi levado a julgamento.

Deverá ser julgado até o final do ano. Só não foi julgado antes porque advogados habilidosos levaram o problema para Brasília, “enrolaram” o processo, e o major continua livre, trabalhando na Polícia Militar, numa afronta direta à família da vítima, que perdeu um ente querido, e à sociedade).

Para o bem-estar da civilização, é decisivo que os conflitos entre os homens sejam resolvidos pela Justiça, não pelas armas, ainda que Gevani tenha usado uma arma, para, desrespeitando as regras da própria instituição à qual é subordinado, matar um ser humano.

É provável, até, que Gevani não seja mau soldado e homem cruel, mas um homem deve ser julgado por seus atos.

A Justiça deve ser, sobretudo, justa.

E, se é justa, certamente não permitirá que um homem com certo desequilíbrio emocional, que não sabe respeitar as regras da instituição à qual é afeito, continue nas ruas. 

Não se trata tão-somente de condená-lo, judicialmente, mas de avaliar, com o máximo de rigor possível, se tem condições de continuar na Polícia Militar e, sobretudo, trabalhando nas ruas.

Não se quer, aqui, execrar Gevani, que até agora não mostrou nenhum arrependimento como ser humano e sequer admitiu que errou, mas, sim, julgá-lo seguindo os ditames da lei.

Violência fora das campanhas

 

Neste momento, os candidatos a prefeito e vereador de todo o Brasil estão preocupados com propostas para mudar tudo, mas não raro se esquecem de que é preciso pensar não apenas na violência, em ações duras contra os criminosos. É preciso entender que os policiais, militares e civis, precisam de maior qualificação profissional e, mesmo, precisam temer as leis. Disseram, durante a ditadura civil-militar, que o perigo não era o general, e sim o guarda da esquina. Como se viu, no caso do garoto Pedro Henrique, que mal havia saído da adolescência e formara-se em Direito aos 21 anos, o perigo é mesmo o guarda da esquina, como o soldado Gevani, que, com uma arma nas mãos e sem a qualificação entranhada no seu ser, se tornou um perigo para a sociedade.

 

Entretanto, enquanto os políticos não querem discutir a violência, porque é um tema convencional, do qual todos estão aparentemente enjoados e avaliam que não há solução a longo prazo, a sociedade, especialmente em momentos de crise extrema, como a morte de um inocente, discute por si mesma. Aliás, é mais um grito contra a impotência coletiva, um clamor de que é preciso fazer alguma coisa antes que outras vidas inocentes se percam nas ruas ou mesmo dentro das residências. Durante o velório de Pedro Henrique, no Cemitério Jardim das Palmeiras, e, depois nas ruas, alguns automóveis circularam com uma fotografia do garoto – maior de idade há apenas cinco anos – e uma frase que deveria ser lida com atenção por todos: “Pedro Henrique – Não quero ser mais um”.

 

A frase é muito séria e deveria ser debatida nos parlamentos, nas universidades e mesmo nos batalhões da Polícia Militar. O correto tenente-coronel Katayama deveria sugerir ao Secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller, um advogado competente e permanentemente contra a barbárie, que o tema seja discutido pela polícia. Nos momentos de crise – crescimento em grego – é que assuntos de maior relevância para a sociedade, como a paz no trânsito, o convívio harmônico em sociedade e uma polícia mais comunitária e menos violência, devem ser discutidos amplamente. A morte de Pedro Henrique pode-se transformar numa ferramenta educativa.

 

A mãe de Pabline, Valéria Valle, disse ao jornal “Diário da Manhã”: “A dor é muito grande. Socorro!” O grito de Valéria tem a ver com a dor da filha, que ficou sem a companhia de Pedro Henrique, talvez seu primeiro grande amor, e terá de criar um órfão. Mas, na verdade, deve ser visto como um grito de apelo a todos nós e, também, por todos nós. Há uma sensação de impotência, porque, se a Polícia Militar, que é treinada e paga para proteger os cidadãos de bem, sai matando – e, vale dizer, Pedro Henrique não é o primeiro a ser morto por policiais – a quem recorrer? O grito de Valéria Valle é, por assim dizer, o grito de alguém que, ainda que tenha sofrido um choque tão grande, acredita que é possível fazer alguma coisa, que é preciso confiar em alguma coisa – na Justiça, por exemplo.

 

A mãe de Pedro Henrique, Maria do Rosário Queiroz, disse, no velório: “Me ajuda, Deus. Eu amo tanto meu filho! Deus me ajude.” De novo, a sensação de impotência. Maria do Rosário deve ser religiosa, mas ao recorrer a Deus, com um pedido de ajuda tão grave, está a nos dizer que alguma coisa está errada no mundo dos homens, que saem por aí matando garotos que querem apenas viver e, como dizem curtir a vida, divertir-se, ter uma família. Nada mais. Os jovens, no geral, querem muito pouco e, por isso, não podem ser privados das ruas.

 

Licença para matar

 

O deputado estadual Mauro Rubem, do PT, é tido como radical. E é mesmo. Mas, em algumas questões, tem suas razões. Na sua defesa intransigente da vida humana e no seu combate sistemático à violência policial, Mauro deveria ser ouvido com mais atenção tanto pela própria polícia quanto pela sociedade.

 

Mauro tem alertado que a Polícia Militar tem matado várias pessoas em Goiânia, sobretudo. Chegou a ser ameaçado por policiais mais virulentos e alguns policiais chegaram a entrar na Assembléia Legislativa para intimidá-lo. O parlamentar petista não se intimidou e continua a defender sua política de direitos humanos.

O Jornal Opção discorda de algumas posições de Mauro, principalmente quando se tenta crucificar a Polícia Militar como um todo e desconsiderando que, no confronto contra criminosos armados, o mais justo é preservar a vida dos policiais. Nesse momento, os policiais estão agindo em nome dos cidadãos de bem contra homens que não querem ser cidadãos, e sim párias que, não raro, vitimam indivíduos inocentes. Noutras palavras, quem defende os direitos humanos deve se preocupar em não defender, ainda que indiretamente, os “direitos” dos criminosos. Há de se concordar que o Estado de Direito vale para todos, mas a prioridade absoluta deve ser exatamente aqueles que aceitam e defendem esse Estado de Direito.

Entretanto, quando se defende que a Polícia Militar deve ser dura no combate ao crime, na defesa dos cidadãos de bem, não se está a postular que a polícia de vê ganhar licença, ao estilo James Bond, para matar. Porque, se ganha licença para matar, a polícia se torna incontrolável. Assim, começa matando bandidos e, logo depois, estará matando suspeitos e, também, inocentes. Possivelmente, e o direito à dúvida deve ficar explícito – porque o jornalismo, como a vida, não é construído apenas de certezas – , o soldado Gevani só teve coragem de atirar no automóvel onde estava Pedro Henrique porque leu nos jornais ou ouviu na caserna que policiais militares estão matando e não são presos, julgados e condenados. Fica também o benefício da dúvida: Gevani talvez não quisesse matar, e sim apenas assustar, mas não se assusta pessoas atirando.

O tenente-coronel Katayama tem razão: Gevani “dizimou uma família”. Construir uma casa e reformar um prédio não são tarefas difíceis, mas reconstruir uma família não é uma tarefa fácil. Demora anos, quando é possível. As feridas cicatrizam, mas volta e meia se abrem. A punição judicial de Gevani é o primeiro passo, porque os indivíduos, até para respeitarem as leis, precisam acreditar, piamente, na seriedade das instituições que são encarregadas de aplicá-las.

Agora, resta torcer para que Pabline reorganize sua vida e que o pequeno Davi cresça saudável. Mas, repetindo, Pabline e Davi só vão acreditar no País se Gevani receber a punição judicial compatível com seu crime. Não se deve atribuir ao acaso a morte de Pedro Henrique, mesmo que não houvesse intenção de matar. O mundo ficará menos Kafkiano, em alemão ou em português, se Gevani for julgado decentemente.

 

 

 

Euler Belém é
Diretor-Editor Chefe do Jornal Opção
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