Análise psiquiátrica do despreparo policial

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Análise psiquiátrica do despreparo policial

É preciso que a sociedade civil goiana e poderes públicos não deixem passar mais uma vez em branco, como apenas mais um escândalo isolado, um fato fortuito: o caso do assassinato do advogado Pedro Henrique (baleado inocentemente por policiais militares). É preciso que a sociedade manifeste e que os poderes públicos confessem que, ao contrário do divulgado, esse não é um caso fortuito, uma “fatalidade isolada” dentro da corporação. Infelizmente, é uma exceção que tem se tornado regra.

Portanto, não é o caso de apenas punir este ou aquele elemento da corporação, colocá-lo para fazer “trabalhos administrativos” ou enviá-lo para uma “avaliação psicológica”, como ocorreu com esses soldados – o caso é o de uma profunda revisão e formulação das próprias bases sócio-psicológico-jurídicas que têm norteado a Polícia Militar. Todos os segmentos da sociedade civil, aí inclusos aqueles representativos das correntes sociológicas, psicológicas, jurídicas – e por que não psiquiátricas? –, têm de se debruçar sobre este “problema”. Mas que problema, poderiam nos perguntar. Bem, vou começar “problematizando” a situação a partir de um fato prosaico que aconteceu comigo mesmo. Há uns três meses, eu ia passando de carro numa velocidade mínima por uma rua quando me deparei com cones de sinalização e uma blitz da polícia de trânsito. Os cones estavam no meio do asfalto, do lado esquerdo, passavam os carros, que não haviam sido escolhidos, e do lado direito, os carros que eram para parar e serem fiscalizados. Acontece que, no meio da rua, do lado direito, havia uma policial, de modo que o único lugar para passar era do lado esquerdo, ou seja, subentendia-se que eu deveria entrar no corredor da esquerda, dos que seriam vistoriados. Assim o fiz. Só que, quando estava passando pelo policial que pedia documentos, este começou a me xingar : “Você é burro? Quem te mandou parar? Quem te mandou entrar aqui, cara? Sai daqui, vai! Vaza!” Eu fui tentar explicar – bem calmamente, pois, infelizmente, como todo cidadão honesto, eu tenho medo de polícia – que havia aquela policial obstruindo a pista do outro lado, mas ele ficou com mais raiva ainda: “Eu já te mandei vazar, você é burro ou o quê? Some daqui!” Falou isto com muito desprezo e, quando eu tentava falar algo, explicar, ele virava o rosto para outro lado e falava com os outros policiais, como se eu fosse um m... e não merecesse nenhum tipo de atenção. A policial que estava do outro lado da rua e o outro policial da blitz ficaram visivelmente constrangidos, mas não falaram nada, nem em meu favor nem em desfavor do colega perturbado. Quando viu que tinha me intimidado e me feito “calar a boca”, ficou nítida a inflação de ego que isto provocou no policial. É como se, com isso, ele estivesse inflando um ego que precisasse se expandir de algum modo. Talvez por querer exercer um poder, uma impulsividade, uma agressividade, que ficam muito reprimidas perante a disciplina rígida e obediência exigida pelos superiores, ele tenha de extravasar isso num “inferior” como eu. Eu sou inferior a ele porque ele anda com a arma no coldre, tem o poder de me matar, é assim que, infelizmente, muitos policiais – nem todos, evidentemente, há muita gente equilibrada – pensam de nós, os “simples mortais”. Agora, vêm as perguntas: 1 – Uma pessoa dessas tem condição de andar armado? 2 – Será que ninguém sabe que ele é despreparado? 3 – É preciso de uma “avaliação psicológica” para descobrir que ele é um perigo? 4 – Seus chefes não sabem como é este policial? 5 – Um tratamento psiquiátrico pode resolver o problema dele? 6 – Onde está a solução para tudo isto, como se pode impedir que um policial desses, tão agressivo e paranóico, saia por aí atirando e matando, como no caso Pedro Henrique? 7 – Ou será que ele continua lá, mesmo sendo conhecido por todos, superiores e inferiores, justamente porque está inserido num contexto social onde isto é banalizado, tolerado e até, em alguns casos, estimulado? As respostas para estas questões me parece muito mais sociológicas do que psiquiátricas, e abaixo veremos por que. Os problemas começam desde cedo na corporação. De início, a separação entre as polícias, uma “comum” e outra “militar” (coisa que quase só acontece no Brasil) gera o espírito de que a Polícia Militar é uma corporação de “fortes”, de “armados”, de poderosos, exatamente porque andam com um coldre a tiracolo. É bem diferente do espírito das polícias de países mais desenvolvidos, onde a imagem do policial é muito mais calma, muito mais racional, muito mais “quieta”. É a aquela imagem do detetive, do investigador, da pessoa inteligente, ou seja, forte, corajosa – tudo bem –, mas não violenta, não armada até os dentes, muito mais intelectual do que “agitada” e hiperativa, muito mais discreta e disfarçada do que uniformizada, condecorada e ostensiva. A imagem de uma “polícia militar” armada, um tipo de “exército urbano”, atrai muitas pessoas identificadas com o uso de armas, com o combate, violência, fantasias sádicas, fantasias e necessidade de mando, de controle, impulsividade e aventura. Essas pessoas são atraídas por este espírito desde a admissão; depois, ao chegar lá, muitos se frustram pois: a) têm de se controlar ao máximo, quando o que queriam é aventura; b) têm de tratar os outros com educação, quando o que queriam é impulsividade; c) têm de controlar o revólver ao máximo, quando o que queriam era atirar; d) têm de obedecer a um número enorme de pessoas, oficiais, quando o que queriam era mandar; e) têm de ficar parados por horas, quando o que queriam é adrenalina o tempo todo; f) têm de conviver com uma elite de superiores que ganham muito mais que eles, têm muito mais poderes e prerrogativas e têm de servi-los e obedecê-los, até religiosamente, gerando uma situação na qual sentem-se humilhados e se tornam ressentidos silenciosos; g) têm de estar preparados para servir e estar a mando da população e não agredi-la, extorqui-la, violentá-la, humilhá-la, como aconteceu comigo no fato narrado acima. Tudo isto vai explodir e pode explodir como uma bala explosiva na cabeça de alguém, como aconteceu com Pedro Henrique. Para “acalmar” sua natureza agitada, muitos, infelizmente, entregam-se ao fumo, álcool, substâncias psicoativas, ou tentam derivar ou exercer sua impulsividade prestando outros serviços, como seguranças ativos ou como integrantes de milícias, grupos de vigilância ou mesmo de extermínio. Ou seja, toda aquela agressividade que teve início logo na admissão será, um dia, libertada, de uma forma ou de outra. O problema, portanto, começa no próprio recrutamento, exatamente porque a filosofia já é dirigida para a “arma”, para a força, e não para a inteligência, não para o público, não para servir. Tanto é que o símbolo da PM evoca aquele de uma força armada, são duas garruchas cruzadas. Depois que o desvirtuamento filosófico, estrutural, social da corporação está feito – e perdura por decênios a fio –, não adianta tentar corrigir nada com “avaliações psicológicas” ou muito menos com intervenções psiquiátricas, pois o problema não é pontual, não é de um e outro elemento do grupo – como apregoado pelas autoridades –, mas, sim, um problema de base, de estrutura e de filosofia. É muito mais um problema sociológico do que psicológico, aí está uma diferença weberiana e durkheimiana tão clara quanto a luz do sol. Marcelo Caixeta é médico psiquiatra

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