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Há crimes que agridem os valores éticos da sociedade não só pela ferocidade que move o criminoso como, também, pela crueldade de seu modo de agir. Neste contexto pode-se situar o crime que um soldado da Polícia Militar cometeu recentemente ao matar, por motivo fútil, um jovem pai de família, bacharel em Direito.

O que fazia o jovem, que acabara de promover o batizado do filho de 1 ano de idade? Em companhia da mulher e de um amigo, exercia em Goiânia o direito de ir e vir. De carona com um amigo, passou por uma viatura da Superintendência Municipal de Trânsito. E um dos policiais dessa viatura, então, sob a ordem de um superior, atirou, e a bala atingiu justamente a cabeça da vítima. O motorista do carro alega que fez um retorno brusco quando viu que tinha entrado na rua errada; o soldado justifica que atirou porque o motorista “deu um cavalo-de-pau”. E acaso alguma dessas manobras de um motorista deve ser punida com a morte? Há crimes cuja vítima é a própria sociedade, que se revolta. Não é admissível que uma instituição de 150 anos de relevantes serviços prestados à segurança da sociedade tenha em seus quadros agentes policiais capazes de uma atitude impensada como aquela. A PM é, de fato, um patrimônio do povo goiano e não pode ter sua folha de serviços manchada, neste caso ou noutros em que se revele a desregrada e incabível fúria de seus agentes. Nos dois períodos em que governei Goiás, não só aprendi a conhecer melhor e a respeitar ainda mais essa instituição como pude investir atenção, cuidados, projetos e recursos financeiros em esforços para aperfeiçoar nossas Polícias. Um soldado, que ganhava aproximadamente 400 reais quando entrei no governo, passou a ganhar R$ 2,4 mil. Praças, oficiais, bombeiros, técnicos, todos foram valorizados. E não houve apenas aumento salarial, mas uma preocupação com a qualificação contínua de todos os integrantes da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Técnico-Científica. No âmbito da Polícia Militar, por exemplo, tornou-se obrigatório ao policial cursar o chamado Procedimento Operacional Padrão (POP), onde ele se requalifica ao aprender a manusear armas modernas e a como e quando usá-las. Nossos policiais passaram a freqüentar cursos resultantes de convênios com universidades goianas e instituições internacionais. Enviamos projeto de lei à Assembléia exigindo curso superior para ingresso nos quadros de nossas Polícias e um amplo investimento na Polícia Técnico-Científica fez com que as antigas técnicas de investigação fossem substituídas por equipamentos e tecnologias modernas. Criamos núcleos regionais e IMLs no interior e construímos e equipamos a nova sede do Instituto de Criminalística em Goiânia, que coloca Goiás no mesmo nível de São Paulo, erguida com recursos da Secretaria Nacional de Segurança Pública, com contrapartida do Estado e concluída pelo governador Alcides Rodrigues. A sede do Centro Integrado de Atendimento a Emergências, com o objetivo de integrar as Polícias, possibilitou maior agilidade nos serviços prestados ao cidadão. Implantamos o Projeto de Polícia Comunitária, a partir de experiências bem-sucedidas no Japão, na França, na Espanha e no Canadá, que funcionou na Região Leste de Goiânia e que em 2005 recebeu 1º lugar no Concurso Nacional de Polícias Comunitárias. Tudo isso, enfim, foi feito com a única preocupação: deixar bem claro o papel que se destina ao policial numa sociedade avançada. Em todos os cursos ministrados, o policial passou a ser conscientizado dos postulados básicos de construção do Estado Democrático de Direito. Consciente desses postulados, todo agente policial sabe hoje que o limite de sua ação é a lei e que ele deve ter a consciência de que é apenas um cidadão, fardado ou não, que utiliza uma arma somente para a defesa da sociedade. Neste caso do soldado que, destoando de sua corporação aprimorada, matou o jovem pai de família, e do cabo que deu a ordem de atirar, devem sua própria corporação e o Poder Judiciário submetê-los a todo o rigor da lei. Espera-se, neste caso, uma exemplar punição. Afinal, contra todo o ensinamento e o treinamento recebidos, o soldado e o sargento fizeram questão de desprezar o bom senso, embora naturalmente o discernissem, e agiram ao arrepio da lei, que têm o dever moral de respeitar e a obrigação profissional de defender. Marconi Perillo, senador (PSDB), foi governador de Goiás (1999-2006).

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